domingo, 25 de setembro de 2011

Deuses e Mundos

O tempo começa com a vinda dos deuses. Eram inúmeros naquela época. Dentre tantos, existia Los, uma entidade de fogo que nadava pelo oceano negro. Também haviam os anjos. Dois deles figuravam de maneira especial para Los: Ane e Ani. Ane definia-se como a Dama de Prata, por seus trejeitos régios e sua pele de um prateado níveo. Seu irmão Ani era como um conjunto ramificado de raízes e galhos que se delineavam em traços humanóides. 

A sina de ambos anjos era não possuir asas, por isso viviam em torno de Los. Tal relação tornava-se mais um motivo de honra, orgulho. Era uma obsessão afinal. E também um motivo para disputas acirradas. O que de melhor poderia ser oferecido para Los? Ani tinha muitas idéias. Ofereceu a Los espectros de existência efêmera corporificados através de água e terra, chamou-os de seres vivos. 

Por sua vez, Ane, outrora orgulhosa pela sua beleza arrebatadora, ficou perdida na vergonha de não ter nada a presentear o amado Los, e então gritou por seus ancestrais e por deuses sombrios. E assim na aurora do tempo, ela concebeu sua obra: chamou seu irmão a sós e com um movimento rápido tomou sua vida e utilizou o seu corpo como molde. E dessa forma se fez um novo servo a Los, Arret, um ser destinado a abraçar formas de vidas em sua superfície geodésica.

Tal incrível concepção absorveu de tal forma a atenção de Los, que Ane se enraiveceu, desejava ser vista daquela forma por Los. E então motivada pela inveja tentou fazer o mesmo consigo: sacrificou a sua vida. 

Como resultado, nasceu a criatura Aluh, a cintilante prateada, destinada a seguir eternamente Arret em um misto de rodopios e estranhos passos. Uma eterna dança de amor.

E tudo isso ocorreu no tempo de Kah.

Mundos Distantes

Em um tempo remoto a relva, verde e resplandescente, tomava conta de tudo se estendendo infinitamente pelo horizonte nebuloso. Um paradigma de profunda paz e silêncio às vezes quebrado por um sussurro de ondas, trazidos pelo pacato vento das longínquas praias, uma realidade onírica diante da floresta esmeralda que cobria ubíqua, ante um dia que despontava no alvorecer de um promíscuo delírio na mente de antigos deuses.

Neste paraíso da natureza, uma gota de água pendurava-se na ponta de uma folha, agitando-se sempre que o vento urgia pelos campos verdes. Mas por sobre isso se escondia o aforismo da insanidade e do conhecimento além da compreensão de qualquer mortal.

A gota continuava insistentemente a equilibrar-se, ignorando a ventania incessante. Mas a gota era mais do que se podia ver, pois se aproximando perceberia que em uma minúscula gota de orvalho, abrigava-se uma enorme quantidade de criaturas, simples seres unicelulares, amorfos diante do gigantesco mundo ao seu redor. Adentrando mais pela gota, poderia-se ver seus átomos constituintes, formados por esferas de poder e energia que circundavam um globo, cuja força primordial mantinha a poderosa ligação entre os pilares da realidade desde o começo da Criação.

Porém o fim não se encontrava aí, e então a viagem prossegue penetrando ainda mais pela partículas elementares, onde teria-se a visão de milhares de pontos luminosos afastados por distâncias incalculáveis, uma sublime cena de entorpecente grandiosidade. Aprofundando-se nesse enigmático quadro, revelaria-se grandes estrelas e muitos planetas, um universo imensurável.

Uma enorme diversidade de criaturas, raças, povos e culturas, cercadas por uma vastidão do eterno vazio, isolando cada um em seu prosaico mundo, onde a óbice da solidão os moldaria para as conquistas do espaço sideral, quando a transcendente concepção do Tamanho os ofuscaria, deixando os prostrados diante do recôndito e metafísico mistério da vida.

E em meio a esse gigantesco universo haveria, dentre os vários planetas, um que revelaria uma cintilante relva, encobrindo o solo como um grande tapete verde. E de uma pequena folha despencaria uma gota de orvalho, vencida pela força contínua do vento, empurrada em direção ao chão, cairia lentamente, aguardando o pouso inevitável, onde a gota se desfaria, desvanecendo assim como o amargo som do fim de mundos distantes.

Apenas uma História - Parte 1 - A Prisão de Sapo

Os guardas avançam rapidamente em direção a torre-prisão do castelo real. Levam algemado o pobre e triste Sapo. Sabiam como era terrível o destino daqueles condenados pelo Rei. Porém esse era o dever dos duendes e diabretes escolhidos para impor as ordens reais. Assim avançavam, levando o suspeito de ter causado a maior desgraça que possa ter ocorrido desde os Primórdios.

Uma figura escondia-se nas sombras, assistia impassível a toda esta cena. Seu amado Sapo sendo arrastado pelas ruas como algum criminoso cruel. Podia ver como fora amordaçado, suas pernas e braços imobilizados por muitas voltas de pesadas correntes, estas presas por grandes cadeados. Não havia escapatória, fora destituído de qualquer chance de fuga, da possibilidade de qualquer magia salvadora, muito além do alcance de qualquer milagre que pudesse conjurar, de qualquer esperança que pudesse ter. Então desolada, a Criança ainda tenta enxergar o prisioneiro ja tão distante, ignorando as lágrimas que percorriam seu próprio rosto.

Aquele era o seu pai, não o genitor de seu sangue, mas sim de suas idéias, devia a ele a sua entrada no mundo das artes. Ensinara como compor belas sinfonias utilizando espécies raras de pássaros das montanhas, como produzir deslumbrantes cenas, modificando o brilho das estrelas distantes ou a tonalidade da cor da atmosfera ou os mínimos detalhes das formas esfumaçadas das nuvens. Era gentil e inteligente, doando muitas de suas obras para o embelezamento das ruas e monumentos do Grande Reino. Solidário com os problemas de moradias das rãs e outros batráquios, cuidou da implantação de fontes místicas espalhadas por muitos pontos e em muitas cidades. Um ser caridoso. Mas que provavelmente estaria morto dentro de pouco tempo.

Inaceitável, dizia para si mesma. Conhecia Sapo, sabia não apenas de sua incapacidade de fazer tal ato, como também da revolta que poderia manifestar diante de tudo isso. Esse pensamento a martelava, provocando cada vez mais a melancolia que se instalava nela. Ao seu lado, Cão a contemplava firmemente, como se estivesse disposto a consolá-la a qualquer momento. Sapo sempre fora fiel a nós e a todos no Grande Reino. Era isso que os olhos brilhantes de Cão pareciam dizer. A Criança afagou o pescoço do Cão e dentro de sua mente tentava encontrar uma explicação.

Exatamente quando o Astro Rei chegou no Grande Reino, e ele já era conhecido por suas visitas frequentes, o aviso fora dado: o cristal havia sumido. O Rei fora chamado e logo entrou em uma prolongada reunião com seus ministros e assistentes, chegando enfim a conclusão de que fora roubado. O roubo mais lamentável desde a fundação do Grande Reino. Estava perdido o objeto mais precioso de todas as terras do Rei: o Cristal das Antigas Histórias.

Uma a uma as habitações das vizinhanças do Castelo Real foram meticulosamente vasculhadas. Assim a notícia se espalhava, rumores sobre uma subsequente destruição do Grande Reino, pois afinal, a fonte de energia e luz que mantinha a prosperidade de todos desde o distante Início, não estava mais em seu lugar. E assim os guardas do Rei prosseguiam suas buscas em um ritmo quase desesperado, enquanto em uma rapidez muito maior se proliferava a certeza do FIM iminente. =

Até a saída da Lady das Marés, uma dama formosa reconhecida sempre por suas constantes, mas não periódicas, voltas pelo Grande Reino, não houve sucesso algum na procura pela preciosidade do Rei. Os guardas encontravam-se já a uma grande distância do Castelo Real, e uma das residências a serem reviradas era de uma forte personalidade local, que atendia pelo nome de Sapo. Calmamente Sapo lhes abriu a porta de sua mansão não tão abastada, mas certamente não humilde. Acompanhou cada um deles para que conhecessem cada um de seus cômodos. A revista fora feita sem nenhum problema até que se chegasse no minúsculo e solitário quarto no último andar, lá perceberam que seria problemático realizar  uma busca aprofundada devido a falta de espaço. Entretanto por insistência de um diabrete caolho, um guarda em vias de promoção, um pequeno duende de jardim fora averiguar. Não foi necessário muito tempo para que uma pequena portinhola fosse aberta e revelasse uma almofada real, exatamente a que estava debaixo do cristal antes do roubo. O culpado havia sido capturado. E todas as evidências comprovavam apenas o quão doloroso seria a sua sorte dali em diante.

"Inícios tem grande potencial para serem terríveis. Às vezes até dramáticos em excessos. Pois é assim que os problemas se apresentam, concentrados na vaidade e no desejo de atrair atenções. É por isso que por mais simples que sejam suas soluções e desfechos, estes estão sempre bem camuflados". As palavras de Sapo desenterradas de algum tempo imemorável pareciam trazer um efeito apaziguador no frenético desfile de emoções na mente da Criança. Percebia o seu dever perante o seu mestre e a única entidade paterna que conhecera. Deveria salvar-lhe, encontrar todas as provas necessárias para poupar-lhe do encontro com o algoz do Rei, e dessa forma retribuir a toda generosidade concedida pelo destino, ao permitir que o Sapo a salvasse naqueles Tempos Sombrios. Mas essa é uma história amaldiçoada e há muito tempo acabada, nesse momento o Presente ganhava um valor muito maior. O valor de uma vida.

Cão a olhava com ternura, compreendia a decisão que tomaria e já lhe prestava total apoio a sua jornada. Um grande amigo, certamente um dos melhores. A Criança, então, ajoelhou-se ao lado de Cão que estava sentado vislumbrando o mar muito além das colinas. Prestou seus sinceros agradecimentos por toda a informação que lhe dera e também pelo conforto de sua presença naquele momento. Mas não aceitou a sua companhia na viagem que logo faria. Disse-lhe a verdade: Cão, por mais amável e leal que fosse, era um ser doméstico. Seu lar era tudo o que poderia querer conhecer. Seria bem melhor que permanecesse onde estava, de vigília, à espera do Sapo, que logo retornaria caso a Criança tivesse sucesso em sua empreitada. Ainda triste despediu-se de Cão, que lhe fez apenas um vago movimento com a cauda, e seguiu pelo caminho rumo ao Bosque Sempre Verde, onde morava a Fada, sua maior esperança.

Aprendizado

- O caminho da guerra é uma estrada sangrenta para a autodestruição. Todo o seu talento se perderá inutilmente. A chama de sua espada perderá o brilho. E o motivo da deturpação de seu caráter é um só: uma ambição descontrolada, uma fraqueza capaz de derrotar até o mais forte dos mestres.

O velho parou de falar e analisou as feições do rapaz ajoelhado na sua frente, sentiu o espirito buliçoso de seu pupilo agindo, talvez já fosse tarde, talvez ele já tivesse traçado o seu rumo.

O jovem ergueu-se lentamente, e perdurou um instante em que contemplava o olhar complacente de seu mentor, confirmou então o que seria inevitável: o maior embate de sua vida.

Segundos eram uma noção incompreensível naquele momento. Poderiam apenas dizer que um tempo absurdamente longo passou até que o mais jovem disparasse a sucinta frase:

- Esse opróbrio custará o seu sangue.

Um ligeiro fragor seria ouvido por algum possível expectador quando as suas espadas se encontraram. E tão rápido quando o vento foi o segundo ataque, uma rasteira que o ancião se esquivou com um salto para trás, e com algumas voltas no ar, já estava a alguns metros de seu adversário. Uma investida violenta foi rapidamente desviada pelo antigo mestre. As lâminas movimentavam-se rápido, alternando entre sucessivos choques entre si.

Entretanto o mestre cometeu um pequeno deslize, preste a finalizar a batalha com um golpe fatal, hesitou ante as suas muitas lembranças, ante ao significado que dera a todo o treinamento de seu agressivo discípulo. Um momento em que percebeu que não poderia matá-lo. A oportunidade perfeita para um contra-ataque do rapaz, concentrando-se em um golpe direcionado ao peito do ancião. Este que em uma manobra habilidosa desviou-se da lâmina do discípulo, mas que ainda passou levemente pelo seu ombro, abrindo um pequeno corte.

Afastando-se do mestre, o pupilo soltou uma risada:

- Eu conheço suas artimanhas, seus segredos também são meus, sei de cada uma de suas técnicas. E mais. Eu, como um discípulo perfeito, superei seus ensinamentos e já antecipei seus movimentos. Este seu ferimento no ombro jamais se cicatrizará. Terás de se resignar. Irei para Sekigahara. Serei um herói conhecido ao longo de muitas dinastias.

A compreensão despontou nos olhos do mestre. A espada do jovem guerreiro havia sido embebida em um poderoso veneno. Já sentia seu ombro inchando e seu braço adormecendo. Percebeu que seria uma logomaquia continuar com seu sermão sobre integridade espiritual. Para certas coisas, o viver erar o melhor dos mestres.

- Bem..., aceito minha sorte. Não deturparei seu destino. Admiro suas capacidades e por este motivo eu desejo que sobreviva a este erro. Seu estilo conciso pode lhe render um grande futuro, mesmo sem minha ajuda.

Dizendo isto, o velho solta a espada e senta com uma lentidão inabitual, assume a posição de lótus e com a face totalmente sisuda parece mergulhar em uma profunda meditação.

O jovem o ignora e guarda a espada caída. Ainda sente a adrenalina percorrendo seu sangue. Respira profundamente e murmura algum antigo mantra. A tensão de seu corpo desaparece gradualmente e seus pensamentos tornam-se mais claros. Sabe que tem três dias para deixar estas preocupações relevantes e também mergulhar no seu destino. Não possui nenhum medo em seu coração e acho que isto foi o que o velho lhe deixou como seu maior aprendizado.

Vôo Seguro

Uma preocupação insopitável o atingiu após a primeira turbulência. Todo o avião parecia tomado pelas ondas de choque. Tentou distrair-se com a paisagem pela janela, entretanto, isso apenas lembrou-lhe de quantos metros o separavam do chão.

    Sua hodofobia disparava pensamentos cada vez mais alarmantes. Um tétrico desfecho para todo a sua jornada desde o Oriente: ele, um aristocrata de alta classe, morto em uma catástrofe aérea.

    A comida em poltrona mostrava-se menos apetecível, conforme seus olhares em direção à janela tornavam-se mais frequentes. Não havia problemas, ele fora acostumado a jejuar durante a infância, nas suas longas idas a santuários e mesquitas.

    Mesmo forçando uma coragem resoluta para dentro de si, não pôde reprimir uma manifestação mais natural de seu medo, e assim jorros de vômito inundaram seu prato e formaram rapidamente poças no chão. Sua tentativa de levantar-se para fugir da imundície de seu banco apenas o deixou mais desnorteado, mal permitindo que chegasse ao banheiro.

    A face no espelho indicava alguém muito diferente do que imaginava. Parecia que toda a iniciativa, força de vontade e inteligência, qualidades pelas quais ele fora escolhido para a viagem, haviam o deixado. Era necessário lutar contra essa tortura de sua mente, concentraria-se apenas em seu objetivo e em como seu sucesso poderia ajudar seu país e aqueles que amava.

    Uma das aeromoças parecia preocupada. Perguntou-lhe se não desejava repousar nas poltronas no setor dianteiro, onde poderia ser melhor atendido por ela. Era sua chance de esquecer sua tola fobia, então a seguiu. E enquanto passaram pela divisória dos setores do avião, ele gentilmente pediu auxilio na retirada do pesado manto que vestia, este meio empapado de um vômito verde-esmaecente. Atendendo a este pedido, a aeromoça desabotou a vestimenta mulçumana e então ficou paralisada. Havia um volume proeminente em por debaixo do manto uma bomba. O homem então gritou o mais altos que pôde: o avião estava sendo raptado, e que ninguém mostrasse reação, pois em volta de sua barriga se escondia um potente explosivo. Todos se assustaram e se submeteram ao controle daquele mârtir das guerras de Alah.

    Seu plano fora surpreendentemente um sucesso. O paraiso lhe esperava após alguns rapidos momentos. E seu único arrependimento era a falta de domínio do seu medo. Uma grande tolice sua, já que aquele fora certamente um vôo seguro.

Orgulho Divino

Admito o quanto sou enfatuado somente quando esta bala atingir meu peito. Eu não esperava ter tempo de dizer tal frase, mas que fique registrado ao menos como um dos meus últimos impulsos cerebrais.

    Talvez eu tenha desregrado pelo longo, extenuante (e sombrio) caminho que venho pecorrendo. Talvez eu apenas tenha me excedido nos sonhos, como um pequeno pássaro imaginando subir muito além das nuvens.

    Fui inclemente com a pobre Susan, e agora estou aqui. Mesmo conhecendo meu estilo dogmático, ela insistiu mais do que poderia para que eu largasse essas idéias, esses confusos sonhos. Mas ela não sabia quais seriam as consequências daqueles jogos, daqueles pequenos rituais. Ela apenas desistiu quando soube das crianças. Lembro de sua pele arrepiando enquanto relatava como o sangue me serviu tão bem. Tola, não imaginava qual seria o meu destino.

    E agora espero a bala chegar ao meu coração ao mesmo tempo em que a minha mente já se afasta  perdida em antigas filosofias. O verdadeiro caminho era o prazer ou seria o sacrifício pelo sangue? Estava na hora de um sincretismo.

    E quando a bala atravessar meu peito poderei dizer a extensão do meu orgulho. E também sobre minha imortalidade. Pobres tolos. Eu lhes mostrarei o efeito de sangue e corações infantis em uma alma iluminada.

Alvorada Vermelha

O vento parecia uivar quando passava pelas árvores, balançando galhos e arrancando ramos,  e então imergia na fétida névoa que dominava a floresta. Este conjunto denso de olmos, e outras variedades da mesma família, formavam uma região gigantesca, um extenso cenário mal iluminado pelo luar, que penetrava por raras frestas na espessa neblina. Aquela lua cheia e horrivelmente vermelha, tão lúrida e sinistra, uma composição perfeitamente tenebrosa, emanando uma aura silente e ameaçadora.

Havia outros sons que ecoavam neste cenário tenebroso: um longo e quase inaudível piar de uma coruja, folhas que farfalhavam a passagem de alguns pequenos roedores assustados, o rastejar da proeminente cauda de um lagarto, a queda de uma fruta mastigada por um morcego. E entre estes, ouvia-se mais um distinto barulho: pisadas fortes e rápidas, mas descompassadas em um contínuo andar cambaleante, ocasionalmente seguido de uma sonora colisão com um tronco (este se oco transformava o violento encontro em uma lamentação das criaturas noturnas que lá viviam), um galho sendo esmigalhado rispidamente ou uma respiração agitada que se sobressaltava a medida que se prosseguia em sua corrida.

Seus passos estavam pesados, como se carregasse todas as suas dolorosas vicissitudes durante os dias em que cruzava a floresta rumo ao seu limite noroeste. Tremia completamente, gotas geladas de suor desciam pelo pescoço e mergulhavam na vermelhidão de um profundo ferimento em seu peito, trazendo-lhe uma imperceptível ardência, quase minúscula se comparada com as dores que lhe afligiam a alma. Era por pouco que o cansaço não se sobrepujava a toda a sua determinação, embora lhe deixasse levemente aturdido e restringia suas capacidades, permitindo-lhe sentir parcialmente o vento gélido e cortante, os sons dos seres notívagos e uma escuridão umbrosa.

As trevas em que tudo a sua volta estava imerso parecia ter uma voz própria dentro de sua mente, embalando-o com suas suaves canções de promessas impossíveis, sobre um passado já perdido. O seu espírito fora atingido por uma súbita corrente de lembranças, que em vão tentava bloquear. Ele perdera o seu maior tesouro, a maior importância de sua vida. E isto sucedera repentinamente há poucos dias. Possuía um hábito antigo dos tempos de sua mocidade, costumava logo após o despertar a enveredar por bosques, ruínas ou estradas, um passeio para comungar com a natureza e satisfazer seus anseios por aventuras. Retornando de sua pequena jornada, surpreendeu-se com a entrada de seu lar arrombada. Correu, então, pelas entranhas de sua morada e deparou-se com um grupo de estranhos homens, morenos como nunca havia visto e trajados com armaduras de couro. Naquele momento estavam todos atacando o que lhe era de mais precioso: seu filho, o único de sua linhagem. Ferido e desesperado, defendia-se com prodigiosa habilidade enquanto o sangue encharcava o chão. E em um impulso animalesco, o pai desalentado investe contra os invasores, em uma fúria instintivamente maligna e natural. O sangue então dominava não apenas o piso sob a luta, onde a carne mutilada se acumulava, mas também difundia seu odor pelo ar. O jovem forçadamente inspira o pungente que contaminava o lugar em que nascera, em que vivera, e tombou lentamente. E dessa forma seu corpo desabou, enquanto seus olhos perdiam o fulgor da vida e tornaram-se, aos poucos, opacos e vidrados. Um instante que perdurou pela eternidade na mente do desolado pai, onde toda a realidade parecia consistir-se nesse único fato, na verdade inalterável e inconsolável daquela vida perdida.

Um insopitável grito brotou das profundezas de seu ser, o ressoar da incomensurável tristeza que medrava entre repentinas recordações: o festejado nascimento de sua cria, os primeiros e árduos meses de sua vida, as muitas vezes em que tentara ensinar-lhe sobre o mundo, em que tentava adivinhar o seu futuro, agora injustamente roubado.

Paralisado pelo sentimento sufocante que reverberava em sua alma, não atentou para a lança que fora jogada em sua direção, sentindo-a apenas quando penetrava sua carne, despertando de imediato sua cólera. Assustados diante de uma morte eminente, o restante dos insidiosos voltaram-se para a floresta e a adentraram velozmente, deixando-o prostrado ante as lamúrias de seu destino.

Ao final do dia, o corpo de seu filho repousava em uma caverna sombria onde seria sua cripta. Cuidara apressadamente do ferimento causado pela lança e logo partiu, procurando por rastros, rumando por entre árvores. O percorreu muitas vezes pelo firmamento, enquanto insistia na perseguição de seus inimigos.

Pensamentos dolorosos disparavam diante da persistência com a qual a sua memória revivia todos estes acontecimentos. Atordoavam-no de tal maneira que se espantou ao notar a luz diurna dissipando vagarosamente os restos da noite, a alvorada surgindo brilhante no horizonte. Mas foi uma outra visão que lhe chamou mais atenção: avistava telhas de uma habitação humana no final da trilha que seguia. Acelerando o passo, deparou-se com uma pequena vila, como tantas existem por este extenso mundo. Como para confirmar sua certeza sobre o local, uma porta de uma casa foi aberta e um de seus moradores saiu em direção a um poço logo na entrada da rua principal. Era moreno, como esperava, vestia um curto manto de couro e uma calça fina, tinha uma pequena altura, não ultrapassava o tamanho de um pônei, e possuía um rosto de radiante juventude. Era uma criança. Ao vê-la, não pôde conter um sorriso, seus lábios abriram-se largamente fornecendo uma visão de longas séries de dentes amarelados e terrivelmente afiados. Preparou cada uma de suas quatro pernas para a fugaz investida que faria, revirando o solo com suas garras cortantes. Seu coração pulsava lepidamente ante a proximidade de seu objetivo, tal animação mostrava-se também na agitação de sua longa cauda e no movimento impaciente de suas asas negras. Seu rosto implacável, um olhar feroz através de suas pupilas intensamente vermelhas, esperava a chegada do garoto ao poço. Logo lá estava pegando uma vasilha, que soltou de imediato ao perceber o ser monstruoso que avançava. O medo marcou completamente o inocente olhar do garoto. A criatura pensou nesse instante em como seu filho era uma triste vítima de um injusto destino. Antes de iniciar a carnificina, apreciou com satisfação o amargo e sangrento sabor da vingança.

Incômodo

A garota de olhar felino e ar pomposo desata a falar:

- Sabes aqueles ali em cima vestidos de branco? Estes são os mais antigos e influentes nestas terras. Não há como não mencionar os seus nomes. E não encontrarás par para suas obras. Eles são nossas iluminárias.

Ele ainda estava perdido, mal sentia suas próprias mãos, seus joelhos tremiam. Não, não era a emoção do lugar. Era um incômodo impronunciável e que mal podia explicar.

- Ignores os que não possuirem o brasão da ordem. Nem mesmo se tentarem falar contigo. Há certos patamares que estes pobres diabos não deveriam se atrever a cruzar. Milton compreendia essas coisas. Soube até descrevê-los a um nível interessante e humano. Mas o que resta de humanos nestes? Não me respondas. Não existe boa resposta. Apenas inquietações neste lado da fronteira. Sonhos deveriam ser assim. Talvez fosse mais proveitosos, mais úteis para o porvir, para quando o mundo seguisse adiante...

Aproveitando uma pausa de sua companheira verborrágica, não pôde evitar perguntar:

- Isto não é um sonho?

Todos no salão começaram a gargalhar. Ele subitamente lembrou do instante em que a espada atravessou seu peito, do sangue jorrando e de uma garota altiva lhe oferecendo uma salvação por um preço ainda desconhecido.