- O caminho da guerra é uma estrada sangrenta para a autodestruição. Todo o seu talento se perderá inutilmente. A chama de sua espada perderá o brilho. E o motivo da deturpação de seu caráter é um só: uma ambição descontrolada, uma fraqueza capaz de derrotar até o mais forte dos mestres.
O velho parou de falar e analisou as feições do rapaz ajoelhado na sua frente, sentiu o espirito buliçoso de seu pupilo agindo, talvez já fosse tarde, talvez ele já tivesse traçado o seu rumo.
O jovem ergueu-se lentamente, e perdurou um instante em que contemplava o olhar complacente de seu mentor, confirmou então o que seria inevitável: o maior embate de sua vida.
Segundos eram uma noção incompreensível naquele momento. Poderiam apenas dizer que um tempo absurdamente longo passou até que o mais jovem disparasse a sucinta frase:
- Esse opróbrio custará o seu sangue.
Um ligeiro fragor seria ouvido por algum possível expectador quando as suas espadas se encontraram. E tão rápido quando o vento foi o segundo ataque, uma rasteira que o ancião se esquivou com um salto para trás, e com algumas voltas no ar, já estava a alguns metros de seu adversário. Uma investida violenta foi rapidamente desviada pelo antigo mestre. As lâminas movimentavam-se rápido, alternando entre sucessivos choques entre si.
Entretanto o mestre cometeu um pequeno deslize, preste a finalizar a batalha com um golpe fatal, hesitou ante as suas muitas lembranças, ante ao significado que dera a todo o treinamento de seu agressivo discípulo. Um momento em que percebeu que não poderia matá-lo. A oportunidade perfeita para um contra-ataque do rapaz, concentrando-se em um golpe direcionado ao peito do ancião. Este que em uma manobra habilidosa desviou-se da lâmina do discípulo, mas que ainda passou levemente pelo seu ombro, abrindo um pequeno corte.
Afastando-se do mestre, o pupilo soltou uma risada:
- Eu conheço suas artimanhas, seus segredos também são meus, sei de cada uma de suas técnicas. E mais. Eu, como um discípulo perfeito, superei seus ensinamentos e já antecipei seus movimentos. Este seu ferimento no ombro jamais se cicatrizará. Terás de se resignar. Irei para Sekigahara. Serei um herói conhecido ao longo de muitas dinastias.
A compreensão despontou nos olhos do mestre. A espada do jovem guerreiro havia sido embebida em um poderoso veneno. Já sentia seu ombro inchando e seu braço adormecendo. Percebeu que seria uma logomaquia continuar com seu sermão sobre integridade espiritual. Para certas coisas, o viver erar o melhor dos mestres.
- Bem..., aceito minha sorte. Não deturparei seu destino. Admiro suas capacidades e por este motivo eu desejo que sobreviva a este erro. Seu estilo conciso pode lhe render um grande futuro, mesmo sem minha ajuda.
Dizendo isto, o velho solta a espada e senta com uma lentidão inabitual, assume a posição de lótus e com a face totalmente sisuda parece mergulhar em uma profunda meditação.
O jovem o ignora e guarda a espada caída. Ainda sente a adrenalina percorrendo seu sangue. Respira profundamente e murmura algum antigo mantra. A tensão de seu corpo desaparece gradualmente e seus pensamentos tornam-se mais claros. Sabe que tem três dias para deixar estas preocupações relevantes e também mergulhar no seu destino. Não possui nenhum medo em seu coração e acho que isto foi o que o velho lhe deixou como seu maior aprendizado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário