O vento parecia uivar quando passava pelas árvores, balançando galhos e arrancando ramos, e então imergia na fétida névoa que dominava a floresta. Este conjunto denso de olmos, e outras variedades da mesma família, formavam uma região gigantesca, um extenso cenário mal iluminado pelo luar, que penetrava por raras frestas na espessa neblina. Aquela lua cheia e horrivelmente vermelha, tão lúrida e sinistra, uma composição perfeitamente tenebrosa, emanando uma aura silente e ameaçadora.
Havia outros sons que ecoavam neste cenário tenebroso: um longo e quase inaudível piar de uma coruja, folhas que farfalhavam a passagem de alguns pequenos roedores assustados, o rastejar da proeminente cauda de um lagarto, a queda de uma fruta mastigada por um morcego. E entre estes, ouvia-se mais um distinto barulho: pisadas fortes e rápidas, mas descompassadas em um contínuo andar cambaleante, ocasionalmente seguido de uma sonora colisão com um tronco (este se oco transformava o violento encontro em uma lamentação das criaturas noturnas que lá viviam), um galho sendo esmigalhado rispidamente ou uma respiração agitada que se sobressaltava a medida que se prosseguia em sua corrida.
Seus passos estavam pesados, como se carregasse todas as suas dolorosas vicissitudes durante os dias em que cruzava a floresta rumo ao seu limite noroeste. Tremia completamente, gotas geladas de suor desciam pelo pescoço e mergulhavam na vermelhidão de um profundo ferimento em seu peito, trazendo-lhe uma imperceptível ardência, quase minúscula se comparada com as dores que lhe afligiam a alma. Era por pouco que o cansaço não se sobrepujava a toda a sua determinação, embora lhe deixasse levemente aturdido e restringia suas capacidades, permitindo-lhe sentir parcialmente o vento gélido e cortante, os sons dos seres notívagos e uma escuridão umbrosa.
As trevas em que tudo a sua volta estava imerso parecia ter uma voz própria dentro de sua mente, embalando-o com suas suaves canções de promessas impossíveis, sobre um passado já perdido. O seu espírito fora atingido por uma súbita corrente de lembranças, que em vão tentava bloquear. Ele perdera o seu maior tesouro, a maior importância de sua vida. E isto sucedera repentinamente há poucos dias. Possuía um hábito antigo dos tempos de sua mocidade, costumava logo após o despertar a enveredar por bosques, ruínas ou estradas, um passeio para comungar com a natureza e satisfazer seus anseios por aventuras. Retornando de sua pequena jornada, surpreendeu-se com a entrada de seu lar arrombada. Correu, então, pelas entranhas de sua morada e deparou-se com um grupo de estranhos homens, morenos como nunca havia visto e trajados com armaduras de couro. Naquele momento estavam todos atacando o que lhe era de mais precioso: seu filho, o único de sua linhagem. Ferido e desesperado, defendia-se com prodigiosa habilidade enquanto o sangue encharcava o chão. E em um impulso animalesco, o pai desalentado investe contra os invasores, em uma fúria instintivamente maligna e natural. O sangue então dominava não apenas o piso sob a luta, onde a carne mutilada se acumulava, mas também difundia seu odor pelo ar. O jovem forçadamente inspira o pungente que contaminava o lugar em que nascera, em que vivera, e tombou lentamente. E dessa forma seu corpo desabou, enquanto seus olhos perdiam o fulgor da vida e tornaram-se, aos poucos, opacos e vidrados. Um instante que perdurou pela eternidade na mente do desolado pai, onde toda a realidade parecia consistir-se nesse único fato, na verdade inalterável e inconsolável daquela vida perdida.
Um insopitável grito brotou das profundezas de seu ser, o ressoar da incomensurável tristeza que medrava entre repentinas recordações: o festejado nascimento de sua cria, os primeiros e árduos meses de sua vida, as muitas vezes em que tentara ensinar-lhe sobre o mundo, em que tentava adivinhar o seu futuro, agora injustamente roubado.
Paralisado pelo sentimento sufocante que reverberava em sua alma, não atentou para a lança que fora jogada em sua direção, sentindo-a apenas quando penetrava sua carne, despertando de imediato sua cólera. Assustados diante de uma morte eminente, o restante dos insidiosos voltaram-se para a floresta e a adentraram velozmente, deixando-o prostrado ante as lamúrias de seu destino.
Ao final do dia, o corpo de seu filho repousava em uma caverna sombria onde seria sua cripta. Cuidara apressadamente do ferimento causado pela lança e logo partiu, procurando por rastros, rumando por entre árvores. O percorreu muitas vezes pelo firmamento, enquanto insistia na perseguição de seus inimigos.
Pensamentos dolorosos disparavam diante da persistência com a qual a sua memória revivia todos estes acontecimentos. Atordoavam-no de tal maneira que se espantou ao notar a luz diurna dissipando vagarosamente os restos da noite, a alvorada surgindo brilhante no horizonte. Mas foi uma outra visão que lhe chamou mais atenção: avistava telhas de uma habitação humana no final da trilha que seguia. Acelerando o passo, deparou-se com uma pequena vila, como tantas existem por este extenso mundo. Como para confirmar sua certeza sobre o local, uma porta de uma casa foi aberta e um de seus moradores saiu em direção a um poço logo na entrada da rua principal. Era moreno, como esperava, vestia um curto manto de couro e uma calça fina, tinha uma pequena altura, não ultrapassava o tamanho de um pônei, e possuía um rosto de radiante juventude. Era uma criança. Ao vê-la, não pôde conter um sorriso, seus lábios abriram-se largamente fornecendo uma visão de longas séries de dentes amarelados e terrivelmente afiados. Preparou cada uma de suas quatro pernas para a fugaz investida que faria, revirando o solo com suas garras cortantes. Seu coração pulsava lepidamente ante a proximidade de seu objetivo, tal animação mostrava-se também na agitação de sua longa cauda e no movimento impaciente de suas asas negras. Seu rosto implacável, um olhar feroz através de suas pupilas intensamente vermelhas, esperava a chegada do garoto ao poço. Logo lá estava pegando uma vasilha, que soltou de imediato ao perceber o ser monstruoso que avançava. O medo marcou completamente o inocente olhar do garoto. A criatura pensou nesse instante em como seu filho era uma triste vítima de um injusto destino. Antes de iniciar a carnificina, apreciou com satisfação o amargo e sangrento sabor da vingança.
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