domingo, 25 de setembro de 2011

Vôo Seguro

Uma preocupação insopitável o atingiu após a primeira turbulência. Todo o avião parecia tomado pelas ondas de choque. Tentou distrair-se com a paisagem pela janela, entretanto, isso apenas lembrou-lhe de quantos metros o separavam do chão.

    Sua hodofobia disparava pensamentos cada vez mais alarmantes. Um tétrico desfecho para todo a sua jornada desde o Oriente: ele, um aristocrata de alta classe, morto em uma catástrofe aérea.

    A comida em poltrona mostrava-se menos apetecível, conforme seus olhares em direção à janela tornavam-se mais frequentes. Não havia problemas, ele fora acostumado a jejuar durante a infância, nas suas longas idas a santuários e mesquitas.

    Mesmo forçando uma coragem resoluta para dentro de si, não pôde reprimir uma manifestação mais natural de seu medo, e assim jorros de vômito inundaram seu prato e formaram rapidamente poças no chão. Sua tentativa de levantar-se para fugir da imundície de seu banco apenas o deixou mais desnorteado, mal permitindo que chegasse ao banheiro.

    A face no espelho indicava alguém muito diferente do que imaginava. Parecia que toda a iniciativa, força de vontade e inteligência, qualidades pelas quais ele fora escolhido para a viagem, haviam o deixado. Era necessário lutar contra essa tortura de sua mente, concentraria-se apenas em seu objetivo e em como seu sucesso poderia ajudar seu país e aqueles que amava.

    Uma das aeromoças parecia preocupada. Perguntou-lhe se não desejava repousar nas poltronas no setor dianteiro, onde poderia ser melhor atendido por ela. Era sua chance de esquecer sua tola fobia, então a seguiu. E enquanto passaram pela divisória dos setores do avião, ele gentilmente pediu auxilio na retirada do pesado manto que vestia, este meio empapado de um vômito verde-esmaecente. Atendendo a este pedido, a aeromoça desabotou a vestimenta mulçumana e então ficou paralisada. Havia um volume proeminente em por debaixo do manto uma bomba. O homem então gritou o mais altos que pôde: o avião estava sendo raptado, e que ninguém mostrasse reação, pois em volta de sua barriga se escondia um potente explosivo. Todos se assustaram e se submeteram ao controle daquele mârtir das guerras de Alah.

    Seu plano fora surpreendentemente um sucesso. O paraiso lhe esperava após alguns rapidos momentos. E seu único arrependimento era a falta de domínio do seu medo. Uma grande tolice sua, já que aquele fora certamente um vôo seguro.

Um comentário:

  1. Foi o primeiro conto que você me mostrou e lembro bem da minha reação ao ler o final! Espero que os outros que partilham o mesmo caderno possam também partilhar um dia seu blog e mostrar ao mundo seu talento!

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