Os guardas avançam rapidamente em direção a torre-prisão do castelo real. Levam algemado o pobre e triste Sapo. Sabiam como era terrível o destino daqueles condenados pelo Rei. Porém esse era o dever dos duendes e diabretes escolhidos para impor as ordens reais. Assim avançavam, levando o suspeito de ter causado a maior desgraça que possa ter ocorrido desde os Primórdios.
Uma figura escondia-se nas sombras, assistia impassível a toda esta cena. Seu amado Sapo sendo arrastado pelas ruas como algum criminoso cruel. Podia ver como fora amordaçado, suas pernas e braços imobilizados por muitas voltas de pesadas correntes, estas presas por grandes cadeados. Não havia escapatória, fora destituído de qualquer chance de fuga, da possibilidade de qualquer magia salvadora, muito além do alcance de qualquer milagre que pudesse conjurar, de qualquer esperança que pudesse ter. Então desolada, a Criança ainda tenta enxergar o prisioneiro ja tão distante, ignorando as lágrimas que percorriam seu próprio rosto.
Aquele era o seu pai, não o genitor de seu sangue, mas sim de suas idéias, devia a ele a sua entrada no mundo das artes. Ensinara como compor belas sinfonias utilizando espécies raras de pássaros das montanhas, como produzir deslumbrantes cenas, modificando o brilho das estrelas distantes ou a tonalidade da cor da atmosfera ou os mínimos detalhes das formas esfumaçadas das nuvens. Era gentil e inteligente, doando muitas de suas obras para o embelezamento das ruas e monumentos do Grande Reino. Solidário com os problemas de moradias das rãs e outros batráquios, cuidou da implantação de fontes místicas espalhadas por muitos pontos e em muitas cidades. Um ser caridoso. Mas que provavelmente estaria morto dentro de pouco tempo.
Inaceitável, dizia para si mesma. Conhecia Sapo, sabia não apenas de sua incapacidade de fazer tal ato, como também da revolta que poderia manifestar diante de tudo isso. Esse pensamento a martelava, provocando cada vez mais a melancolia que se instalava nela. Ao seu lado, Cão a contemplava firmemente, como se estivesse disposto a consolá-la a qualquer momento. Sapo sempre fora fiel a nós e a todos no Grande Reino. Era isso que os olhos brilhantes de Cão pareciam dizer. A Criança afagou o pescoço do Cão e dentro de sua mente tentava encontrar uma explicação.
Exatamente quando o Astro Rei chegou no Grande Reino, e ele já era conhecido por suas visitas frequentes, o aviso fora dado: o cristal havia sumido. O Rei fora chamado e logo entrou em uma prolongada reunião com seus ministros e assistentes, chegando enfim a conclusão de que fora roubado. O roubo mais lamentável desde a fundação do Grande Reino. Estava perdido o objeto mais precioso de todas as terras do Rei: o Cristal das Antigas Histórias.
Uma a uma as habitações das vizinhanças do Castelo Real foram meticulosamente vasculhadas. Assim a notícia se espalhava, rumores sobre uma subsequente destruição do Grande Reino, pois afinal, a fonte de energia e luz que mantinha a prosperidade de todos desde o distante Início, não estava mais em seu lugar. E assim os guardas do Rei prosseguiam suas buscas em um ritmo quase desesperado, enquanto em uma rapidez muito maior se proliferava a certeza do FIM iminente. =
Até a saída da Lady das Marés, uma dama formosa reconhecida sempre por suas constantes, mas não periódicas, voltas pelo Grande Reino, não houve sucesso algum na procura pela preciosidade do Rei. Os guardas encontravam-se já a uma grande distância do Castelo Real, e uma das residências a serem reviradas era de uma forte personalidade local, que atendia pelo nome de Sapo. Calmamente Sapo lhes abriu a porta de sua mansão não tão abastada, mas certamente não humilde. Acompanhou cada um deles para que conhecessem cada um de seus cômodos. A revista fora feita sem nenhum problema até que se chegasse no minúsculo e solitário quarto no último andar, lá perceberam que seria problemático realizar uma busca aprofundada devido a falta de espaço. Entretanto por insistência de um diabrete caolho, um guarda em vias de promoção, um pequeno duende de jardim fora averiguar. Não foi necessário muito tempo para que uma pequena portinhola fosse aberta e revelasse uma almofada real, exatamente a que estava debaixo do cristal antes do roubo. O culpado havia sido capturado. E todas as evidências comprovavam apenas o quão doloroso seria a sua sorte dali em diante.
"Inícios tem grande potencial para serem terríveis. Às vezes até dramáticos em excessos. Pois é assim que os problemas se apresentam, concentrados na vaidade e no desejo de atrair atenções. É por isso que por mais simples que sejam suas soluções e desfechos, estes estão sempre bem camuflados". As palavras de Sapo desenterradas de algum tempo imemorável pareciam trazer um efeito apaziguador no frenético desfile de emoções na mente da Criança. Percebia o seu dever perante o seu mestre e a única entidade paterna que conhecera. Deveria salvar-lhe, encontrar todas as provas necessárias para poupar-lhe do encontro com o algoz do Rei, e dessa forma retribuir a toda generosidade concedida pelo destino, ao permitir que o Sapo a salvasse naqueles Tempos Sombrios. Mas essa é uma história amaldiçoada e há muito tempo acabada, nesse momento o Presente ganhava um valor muito maior. O valor de uma vida.
Cão a olhava com ternura, compreendia a decisão que tomaria e já lhe prestava total apoio a sua jornada. Um grande amigo, certamente um dos melhores. A Criança, então, ajoelhou-se ao lado de Cão que estava sentado vislumbrando o mar muito além das colinas. Prestou seus sinceros agradecimentos por toda a informação que lhe dera e também pelo conforto de sua presença naquele momento. Mas não aceitou a sua companhia na viagem que logo faria. Disse-lhe a verdade: Cão, por mais amável e leal que fosse, era um ser doméstico. Seu lar era tudo o que poderia querer conhecer. Seria bem melhor que permanecesse onde estava, de vigília, à espera do Sapo, que logo retornaria caso a Criança tivesse sucesso em sua empreitada. Ainda triste despediu-se de Cão, que lhe fez apenas um vago movimento com a cauda, e seguiu pelo caminho rumo ao Bosque Sempre Verde, onde morava a Fada, sua maior esperança.
Como disse ao ler o original: "Quero o capítulo dooooooois!" E o desenvolvimento daquele resumo sensacional! Você sempre me surpreende! Seja por meio de palavras ou de atos!
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